sábado, 7 de julho de 2007
Olhar vazio
Vou contar um episódio que se passou no lar onde trabalho e que me deixou impotente. A Sra MJC era uma pessoa activa, que falava, que ao ver-me sorria e dizia: "Menina venha cá!! Vamos fazer aquele jogo das mãos!".. Ainda há 15 dias estava assim.. De uma hora para a outra começou a ficar com o olhar fixo e pouco reactiva a estímulos externos. Achei que fosse fruto do cansaço e que de uma hora para a outra voltasse a ser a Sra MJC de sempre.. O facto é que passou mais um dia e ela manteve o mesmo comportamento, pelo que foi encaminhada para o hospital de modo a que se pudesse apurar o que se passava. Veio do hospital com uma sonda de Folley e de Levin, aquela senhora que sorria quando eu passava, tinha agr um olhar triste e revoltado, até nas necessidades básicas estava dependente! Quando entrou no quarto do piano (o quarto que é seu e o piano que outrora animou os serões em família e amigos), puxou pela sonda que agora a alimentava e recusou-se a comer. Estive com ela horas a fio tentando ajudá-la, mas o olhar vazio e o rosto passivo denotavam que não queria continuar, que não valia a pena o meu esforço e a vontade que tinha para que ela engolisse nem que fosse só um gota de água! A vida deixa-nos impotentes, faz-nos acreditar e sonhar, mas também chorar e olhar para o "nada"! O envelhecimento que tanto se diz activo, mostra-se, amiúde passivo devido a factores tão diversos e inexplicáveis..
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